Prof. Hermes Rodrigues Nery

A moral católica como obstáculo ao projeto totalitário de poder global.

O papa Francisco convocou para outubro próximo a Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, para debater o tema “Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização”. Um questionário foi encaminhado a todas as dioceses, para reunir subsídios de reflexão que possam contribuir ao discernimento dos bispos, que apresentarão uma síntese ao papa, que poderá tomar decisões para enfrentar “as novas urgências pastorais que dizem respeito à família”, conforme expressou em sua carta às famílias (http://press.vatican.va/content/salastampa/pt/bollettino/pubblico/2014/02/25/0138/00291.html#TESTO). Conclui a carta, rogando a oração pelo Sínodo dos Bispos, “um tesouro precioso que enriquecerá a Igreja”.

Sim, devemos rezar, e muito. Seguindo o lema de São Bento: “Ora et Labora”. E mais, conforme pediu o próprio Jesus: “Orai e vigiai!” Os tempos atuais, na vida da Igreja, requer oração e vigilância.

Lembro-me da primeira votação que acompanhei do Projeto de Lei que visava legalizar o aborto no Brasil, em 7 de dezembro de 2005, na Comissão de Seguridade Social e Família, na Câmara dos Deputados, ocasião em que compareceu no plenário 7, o amigo Dom Geraldo Majella Agnelo, então presidente da CNBB. Em meio a votação, que por um voto apenas, rechaçou o PL 1135/91, um dos membros da Pastoral Familiar chegou-me a dizer que não conseguia entender o que estava acontecendo, de como a Igreja parecia ter sido enredada numa areia-movediça cultural, e que cada vez mais se via dando braçadas contra a corrente dominante, de uma cultura anti-cristã, mas que agia contra a Igreja, de modo sutil e sofisticado. Já naquele instante, ele me dissera perceber que a pressão era muito forte, que os meios de comunicação disseminavam, em novelas, filmes, programas de auditório, seriados etc., toda uma mentalidade corrosiva, agindo contra a moral católica, a moral familiar, a lei natural, e que ia acuando cada vez mais os religiosos e leigos atuantes na Igreja, mesmo na Pastoral Familiar das paróquias e dioceses, dando a impressão de que era preciso ceder, de que o mundo mudou mesmo, de que a realidade era outra e de que a maioria já não aceitava mais as restrições morais no campo familiar.

Naquela votação de 2005, em meio ao movimento de gente entrando e saindo do plenário 7, ele me dissera: “estamos cada vez mais sem saber o que fazer”. E ainda: “há muito que a Igreja perdera seu protagonismo no campo legislativo, desde a aprovação do divórcio. Hoje é o aborto, amanhã o homossexualismo, depois a eutanásia.Já não sabemos como enfrentar tudo isso”. E então, posteriormente, relendo com mais atenção a Evangelium Vitae, e os demais documentos pontifícios sobre a questão da família, e ainda Jacques Leclerc, Michel Schooyans e outros autores, fui percebendo de que se tratava mesmo de um combate: o combate pela vida e pela família. E Família - suporte da pessoa humanamais: não estávamos preparados para tal combate; pois os inimigos assumiram postos, se infiltraram, foram tomando posições diretivas, até mesmo dentro da Igreja. Muitos preferiram então abraçar o relativismo. Como fazer para dar conta dos inúmeros problemas, de várias situações de impasse, dos incômodos que se agudizaram decorrentes da mais grave crise sofrida pela instituição familiar, desde as primeiras civilizações da Antiguidade, há dez mil anos, quando ela se consolidou como a primeira e principal das instituições humanas? A tentação do relativismo falou mais forte. Para muitos, era preciso flexibilizar a moral, fazer justamente aquilo que os adversários da Igreja queriam, desde o início do combate: extenuá-la até forçá-la a aceitar a capitulação. “Não sabemos o que fazer, mas a crise é grave, gravíssima”, reconheceu o membro da pastoral familiar. E concluiu dizendo: “Temo que se aceitem as falsas soluções, as medidas mais fáceis, que em vez de proteger a família dos ataques intensos, irão fragilizá-la ainda mais, senão derruí-la de vez.”

Passei o ano inteiro de 2006 lendo e estudando a problemática do aborto, procurando saber de onde estariam vindo os ataques contra a família. Não foi muito difícil ter acesso a vasta documentação existente, de estudiosos sérios e pensadores bem informados, quase todos conscientes de que se trata de um movimento de desestabilização social e revolução cultural, que mirou seus dardos contra a família e contra a Igreja Católica (a que mais defendeu a família ao longo da História). O fato é que tal movimento não emergiu espontaneamente, mas foi gestado e impulsionado por poderosas forças econômicas e políticas, que passaram a financiar a cultura anti-família e anti-vida. Já no começo do século XX e, principalmente, depois da Segunda Guerra Mundial, tais grupos de poder (de modo especial as Fundações internacionais, como a Rockefeller e a Ford) passaram a atuar e a protagonizar o ataque contra a família e a moral católica, de modo sistemático e gradual, com tática gramsciana, agindo por dentro da instituições, dos governos, e da própria Igreja, financiando inclusive a dissenção dentro da Igreja, lançando no seio da Igreja e em outras instituições sociais, os venenos de efeitos subterrâneos, com fins de se atingir as raízes que por durante milênios fizeram da família a mais sólida de todas as instituições.

Charles R. Morris, em seu livro “Os Magnatas” (LP&M Editores, 2006), falando de Andrew Carnegie, John D. Rockefeller, Jay Gould e J. P. Morgan, descreve o modo amoral como esses homens acumularam fortuna financeira. “Nenhum deles era modelo de conduta”. Rockefeller, por exemplo, “era frio e cerebral”, todos com “manobras estratégicas”, experts na especulação, no marketing e no embuste. Ficaram notórios pelas “fraudes extravagantes” e reputações arrasadas. Mas o que importa, se havia a obsessão pela prosperidade, e ficaram bilionários? Forjadores de crises para sair delas mais ricos ainda, deixando tudo e todos atônitos a sua volta. Não havia adversário que não fosse reduzido a pó, por eles. E desde o início, quando já eram “donos do mundo” e passaram a impor suas preferências e moldar a cultura dos demais povos, a Igreja Católica foi vista como a adversária das adversárias, e tudo foi feito para miná-la, em todos os aspectos, e mesmo quando acharam que já haviam dado o golpe fatal, julgando que tinham liquidado com ela, de vez, houve quem ainda reclamasse tratar-se de um cadáver difícil de enterrar. A pedra de Sísifo voltava a rolar. O organismo reagia e tudo começava de novo.

Os alvos contra a Igreja prosseguiram. A moral católica era o grande obstáculo a ser vencido para as Fundações avançarem em seu projeto totalitário de poder global. “Os inimigos que enfrentamos são muito poderosos (…) O projeto de domínio global precisa ser feito com as mentes e consciências daqueles que pretende subjugar”, ressalta monsenhor Juan Cláudio Sanahuja, membro da Pontifícia Academia para a Vida. Quando os inimigos da Igreja viram que não era possível destruí-la por inteiro, então descobriram que era possível desfigurá-la, descaracterizá-la, destituí-la, por dentro, despojá-la de sua identidade. Que fique a casca, a aparência, mas o conteúdo precisaria ser sugado e eliminado. E esse trabalho de desmonte por dentro, começou de modo mais acentuado, quando John Rockefeller III esgotou seus esforços em fazer convencer o papa Paulo VI em flexibilizar a moral familiar católica na encíclica Humanae Vitae, publicada em 1968. Rockefeller III esteve pessoalmente em audiência com Paulo VI e arguiu que o mundo mudou, não dá mais, a realidade hoje é outra; querendo que Paulo VI flexibilizasse a moral sexual católica, para para justificar assim o controle

Rockefeller III

Rockefeller III

populacional, recorrendo ao aborto, se preciso, como método mais eficaz, como desejava Margaret Sanger. Rockefeller III saiu da audiência com Paulo VI convencido de que ele havia entendido de que era preciso mudar, flexibilizar. Mas, para estupor de todos, Paulo VI não flexibilizou e manteve a moral familiar de acordo com a lei natural, defendida pela Igreja, há dois milênios. Rockefeller percebeu então que tinha de mudar de estratégia: passou a financiar a revolução cultural. Teria paciência para isso, trinta, quarenta anos, não importa. Mas atacaria a família e a moral católica de outros modos, até a Igreja, acuada e extenuada, ter que flexibilizar, a pedido dos próprios fiéis católicos. Numa entrevista, a fundadora das “Católicas pelos Direito de Decidir”  Francis Kissling (financiada por tais grupos) assim afirmou:

“O direito ao aborto somente será definitiva e irreversivelmente estabelecido entre as mulheres quando, no dizer das Católicas, mais do que a legislação, puder ser derrubada a própria moralidade do aborto, e nisto a Igreja Católica não passa apenas de um alvo instrumental. A moral católica é a mais desenvolvida. Se você puder derrubá-la, derrubará por conseqüência todas as outras”.

Essa foi a estratégia adotada: as Fundações desestabilizariam a sociedade a tal ponto, até que a maioria dos fiéis exigissem do papa a flexibilização. “Não foi, tudo isso, um movimento espontâneo – como me dissera o membro da Pastoral Familiar – mas forças econômicas e políticas poderosas agiram para isso”.

Da audiência de Rockefeller III com Paulo VI, os ataques contra a família e a Igreja se tornaram cada vez mais intensos e sistêmicos. Rockefeller III foi convencido por Adrienne Germain de que era preciso mudar de estratégia. Então, em 1974 (no mesmo ano do Relatório Kissinger), Rockefeller III decidiu investir na revolução cultural, financiando o movimento homossexual e o feminismo radical. Em 1978, Rockefeller III morreu num acidente de carro, mas havia começado a acionar o processo da revolução cultural, hoje bem avançado. Vieram logo em seguida outros investimentos nesse sentido, como “a subversão silenciosa para concretizar o projeto de poder global” – como conta Sanahuja – “impondo alguns novos paradigmas éticos”. Com isso, “erigiu o sentimento da maioria das pessoas como base de toda decisão moral e legal”. A lei natural – onde se alicerça a família – passou a ser substituída pelo “utilitarismo sentimental da maioria”, explica Sanahuja. E acrescenta descrevendo “o novo paradigma de família”, denunciando a ideologia de gênero, imposta por tais grupos de poder, como “um conceito-chave da reengenharia social anti-cristã para subverter o conceito de família”, impondo-nos “uma visão anti-natural da sexualidade auto-construída, a serviço do prazer”. Tudo isso visando (afirma Dale O’Leary): “1) menos pessoas, 2) mais prazer sexual; 3) eliminação das diferenças entre homens e mulheres; 4) que não existam mães em tempo integral”, e que, com essa lógica da cultura da morte, a “receita para a salvação do mundo é:
1)anticoncepcionais grátis e aborto legal; 2) promoção da homossexualidade (sexo sem bebês); 3) curso de educação sexual para promover a experiência sexual entre as crianças e ensiná-las como obter contraceptivos e abortos, que a homossexualidade é normal e que homens e mulheres são a mesma coisa; 4) eliminação dos direitos dos pais, de forma de que estes não possam impedir as crianças de fazer sexo, educação sexual, anticoncepcionais e abortos; 5) cotas iguais para homens e mulheres; 6) todas as mulheres na força de trabalho; 7) desacreditar todas as religiões que se oponham a esta agenda”. Trata-se, como destaca o amigo Jorge Scala, “de uma nova antropologia, que deveria iniciar uma nova cultura. No entanto, essa doutrina, por sua falta de correspondência coma realidade, somente pode ser imposta ideologicamente, isto é, restringindo a liberdade das pessoas mediante uma articulada manipulação semântica, através dos meios formais e informais da educação”.

Com tudo isso, sabemos que, quarenta anos depois de Paulo VI ter decepcionado Rockefeller III, o desafio dos bispos no Sínodo de outubro, que terá como tema central a questão da família. Que respostas darão agora? Fidelidade ao Magistério da Igreja, ou cederão ás pressões por flexibilização? Por isso, podemos dizer que depois de tantos ataques sem trégua, e com todo o aparato tecnológico dos mass media, requer que intensifiquemos a oração e a vigilância, no aguardo das respostas que o Sínodo deverão oferecer ao papa. Sabemos que mais uma vez urge a coragem dos sucessores dos apóstolos em serem fiéis à sã doutrina, pois a família, primeira e principal de todas as instituições humanas, está hoje sob o fio da navalha.
Prof Hermes

Prof. Hermes Rodrigues Nery é especialista em Bioética, pela PUC-RJ.

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